Partindo do conceito de performatividade de género, proposto por Judith Butler no livro Gender Trouble (1990), Gineceu Androceu pretende contrariar a conjuntura binária de género e revelar que a apresentação do sexo não é uma realidade imutável. Numa sociedade, segundo Butler, o género constrói-se, em vez de, naturalmente, surgir. 
Gineceu Androceu pretende revelar, através da teoria de Butler, que o género não se circunscreve somente à diferença biológica. É, inexoravelmente, uma via para uma leitura discursiva e identitária. 
Porque a feminilidade não pertence só às mulheres nem a masculinidade pertence só aos homens.
João Telmo



A identidade do género é uma questão transversal a toda a História do Teatro e da Dança, tanto na cultura ocidental como em outras culturas, sendo, por isso, uma das raras matérias em que se pode observar um 
cruzamento de práticas sociais e culturais comuns.

Talvez por isso, estas duas formas de expressão artística são terrenos privilegiados para o estudo, compreensão e análise da construção social e política da identidade do género. Se o palco e os diferentes espaços de representação foram, praticamente desde o seu início, espaços de experimentação e interrogação acerca dessa identidade, o teatro e a dança reproduziram e retrataram sempre, como nenhuma outra arte, as condições civilizacionais como esta questão era política, religiosa e moralmente tratada no seu tempo. Como alguém referiu, sobretudo a partir de Shakespeare até aos nossos dias, o teatro é um lugar (ou é o lugar) da confusão de géneros. 

De facto, desde o nascimento do teatro e de todas as formas de expressão dramática destinadas a ser olhadas por um público, a ocidente e a oriente, ,a mulher  estava interdita de neles participar, quer enquanto
atriz/comediante, quer mesmo, não raras vezes, no lugar de espectadora. Até aos séculos XVIII/XIX, os  papeis femininos eram obrigatoriamente representados por homens (curiosamente, na Península Ibérica esta regra deixa de se aplicar, de forma continuada, a partir do século XVII). 

Com o fim sistemático e quase generalizado desta interdição, a partir da segunda metade do século XIX, surge pontualmente uma prática inusitada, com algumas das maiores atrizes de então a assumirem em palco (e em pose fotográfica) papéis masculinos, provavelmente reivindicando a desconexão entre sexo e género. E se já nesse tempo são as personagens criadas por Shakespeare que dominam, uma vez mais,  essa confusão de géneros, agora de sentido inverso,  essa realidade persiste até aos dias de hoje, como o demonstram, por exemplo, um recente Rei Lear, representado por uma atriz no Teatro Nacional D. Maria II, ou o Hamlet (a) levado à cena na Comuna, numa versão totalmente feminina.

Confirmando esta premissa, no Museu Nacional do Teatro e da Dança encontram-se inúmeros vestígios e provas do que atrás é referido, quer, continuadamente, nos textos dramáticos criados para serem postos em cena, quer na coleção de adereços e trajos de cena e bailado e, sobretudo, na vasta coleção iconográfica deste Museu, destacando-se as coleções de caricaturas, figurinos e retratos fotográficos, onde a já referida confusão de géneros é frequente. 

Poderia ainda destacar, nas primeiras décadas do século XX,  a apropriação (sobretudo pelas atrizes e, muitas vezes, socialmente criticada), de símbolos ou sinais de masculinidade, para o quotidiano das mulheres e para a definição da moda de então, como fumar em público, as calças como peça de vestuário feminina, ou o cabelo à garçonete, entre muitos outros.

A exposição Gineceu Androceu, criada e produzida pela Nova Companhia e pelo seu diretor artístico João Telmo, emprestada generosamente a este Museu, integrada na sua programação anual de exposições temporárias, é um belíssimo exercício artístico e um olhar contemporâneo sobre o que atrás é referido e, sobretudo, mais um forte contributo para a reflexão (e interrogação) sobre as questões da identidade do género no nosso tempo e sua relação com a criação artística.     
José Carlos Alvarez


SOFIA SOARES RIBEIRO X RICARDO ANDREZ