1985



Sendo o teatro, na sua mais profunda essência, a arte do efémero, como pode existir um Museu do Teatro? Mas se não é possível fazer um Museu do Teatro, é bem possível fazer um museu em que o teatro esteja presente, recolhendo os vestígios de várias épocas.

Será através dos vestígios deixados por toda essa gente do palco, vestígios tão diversos como uma fotografia ou um trajo, um adereço ou um programa, uma maqueta ou um bilhete de entrada, um disco ou uma folha de música, que se poderá captar não o teatro, porque esse passa e ninguém o agarra, mas a atmosfera em que foi criado, o modo como se apresenta e representa em cada época, perante uma sociedade também em constante mutação.
A ideia de criar um Museu do Teatro começou a agitar-se, pelo menos, desde o inicio do século, Sousa Bastos foi dos primeiros agitadores.

                Traje usado por Milú na revista 'Lisboa acordou', Teatro Monumental, 1975Cartaz do Salão Foz, [19--]Traje usado pelo actor Eduardo Brasão em 'A ceia dos cardeais', Companhia Rosas e Brasão, Teatro D. Amélia, 1902. Autoria Carlos CohenPormenor do traje usado por Eduardo Brasão no espectáculo 'Kean', Companhia Rosas e Brasão, Teatro Nacional D. Maria II, 1892.  Autoria de Carlos CohenRetrato a óleo de Lucinda Simões.  Autoria de José Carlos GalhardoPostal-anúncio com Maria Matos no filme 'Varanda dos rouxinois', 1939


A direcção do Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, em Março de 1976, decidiu entregar ao Estado um vasto conjunto de "coisas do teatro" que se degradavam nas suas exíguas instalações, com a condição de, num futuro próximo, ser criado um Museu do Teatro.

Em breve, devido em grande parte ao entusiasmo e compreensão da actriz Maria Helena Matos, que integrava a direcção do sindicato, todo esse material, constituído por centenas de fotografias, algumas num estado considerado irrecuperável, assim como documentos referentes não só à vida sindical como a toda a actividade teatral em Portugal até cerca de 1940, foi alojado numa dependência do recém inaugurado Museu Nacional do Trajo, calorosamente acolhido pela sua directora Natália Correia Guedes.

Coube a Vítor Pavão dos Santos "desbravar" esse material, que depois de pensar no assunto e de se informar mais detalhadamente de como funcionam os museus do teatro no estrangeiro, elaborou um primeiro projecto do museu, em que propunha para o lançamento da ideia, a organização de uma exposição, incidindo numa das épocas mais brilhantes do teatro português: a "Companhia Rosas & Brasão" (1880 – 1898).

Em 17 de Abril de 1978, o então secretário de Estado da Cultura Dr. António Reis, concordou com a proposta apresentada, logo se começando a reunir o material necessário para documentar esse período já distante mas tão decisivo para a evolução teatral.

 Fotografia da 'transformação' do arruinado Palácio do Monteiro-Môr em Museu Nacional do TeatroFotografia do edifício central do Museu Nacional do TeatroFotografia de Glória Machado e Maria Helena Raposo, apoio técnicoFotografia de Glória Ribeiro e Alzira Crispim, conservação e restauro de têxteis e guarda-roupa

Corria a organização da exposição e a recolha de peças já localizadas, quando a 17 de Julho de 1978, teve lugar um acontecimento de importância decisiva: Amélia Rey Colaço foi nomeada consultora do futuro museu, logo se iniciando uma colaboração que o tempo cada vez mais foi estreitando, colaboração de excepção, que se manteve intacta depois de Abril de 1984 quando o museu, por estúpidos impedimentos burocráticos, foi obrigado a dispensar a sua tão ilustre consultora.

A "Companhia Rosas & Brasão (1880 – 1998)", inaugurada no Museu Nacional do Trajo em 1979, desenhada por José Maria da Cruz de Carvalho e em cuja montagem colaboraram alguns elementos daquele museu, veio demonstrar como apesar do muito que se perdera, ainda era possível reconstituir uma brilhante época teatral a cem anos de distância.

Usufruindo ainda, durante algum tempo, da hospitalidade do Museu Nacional do Trajo, até se transferir para um pequeno edifício existente no Parque do Monteiro Mor, a actividade do Museu do Teatro dividiu-se em duas acções distintas: recuperação do Palácio do Monteiro Mor e a sua adaptação a Museu do Teatro e constituição das colecções do museu., processo que continuará sempre em aberto enquanto o museu existir, já que muitas dádivas e recolhas, inclusive das Colecções do Estado, ainda se aguardam e inúmeras lacunas continuam por preencher.
Oficialmente criado pelo Decreto – lei nº 241/82 de 22 de Junho, o Museu Nacional do Teatro sempre lutando com falta de pessoal, pois o seu quadro não podia ainda ser preenchido, por impedimentos legais, conseguiu no entanto, organizar-se, devido à boa colaboração de uma equipa coesa, que nem sempre tem sido possível manter.
Aqui fica, portanto a traços largos a história do Museu Nacional do Teatro que, depois de um período de impasse, abriu ao público com uma exposição onde pretendeu, essencialmente, fazer uma apresentação das suas colecções, em toda a sua multiplicidade, por isso intitulada muito simplesmente: "Gente do Palco".