2000




Em finais do séc. XIX, a revista contava com dois bons desenhadores, Eduardo Machado (1854-1907) e Augusto Pina (1872-1938), que, embora sem a arte apurada de Rafael Bordalo Pinheiro, lhe seguiam o exemplo.
E continuaram a existir cenógrafos de bom gosto, mestres sobretudo em transformações de espantar, sendo o último a deter tais segredos Luís Salvador (1875-1949), membro de uma família de artistas teatrais, filho do dramaturgo e empresário Salvador Marques, pai de Eugénio Salvador, cómico brilhante e grande inovador da revista.
Em 1926, a revista De Teatro comemorava os trinta anos de Barros Jr. Dizendo ser o mais viajado escritor teatral português, educado em Londres e Paris, filho do famoso ourives e diamanteiro José Moreira Barbosa, que era o mais considerado do país e mestre dos poucos que ainda existiam.
Barbosa Jr, tinha um filho chamado José Barbosa, também ele muito viajado e culto, com uma particular fascinação pelos Ballets Russes, que se revelaria o primeiro desenhador teatral moderno.
A verdade é que José Barbosa impôs de imediato a sua arte inovadora, de tal modo que, em 17 de Maio de 1928, numa das muitas renovações de Água Pé, durante o ano inteirinho em que permaneceu em cena um recorde absoluto, a abertura do 2o acto representava Lisboa, que as províncias vinham saudar. E a beleza era tanta que de repente o público levantou-se e aplaudiu de pé o cenário e os trajos que desfilavam.
Nunca tal se tinha visto em Portugal. Era verdadeiramente o triunfo da modernidade e do bom gosto.

     Figurino Odivelas para a revista 'A rambóia', Companhia Hortense Luz, Teatro Maria Vitória, 1928.  Autoria de José BarbosaPormenor do figurino para Damas da corte do quadro 'O reino dos cataventos'  para a mágica 'As tangerinas mágicas', Teatro da Trindade, 1906.  Autoria de Eduardo MachadoPastel 'Bastidores da revista', 1930.  Autoria de Augusto PinaPormenor de fotografia da actriz Maria Cristina com o traje Madame progresso para a revista 'A rambóia', Companhia Hortense Luz, Teatro Maria Vitória, 1928.Pormenor de fotografia do quadro Miss Lisboa e províncias da revista 'Água-pé', Companhia Luísa Satanela-Estevão Amarante, Teatro Avenida, 1927Pormenor do figurino para Madame Progresso para a revista 'A rambóia', Companhia Hortense Luz, Teatro Maria Vitória, 1928Pormenor de figurino para o quadro 'Bóina basca' para a revista 'Feira da Luz', Companhia Hortense Luz, Teatro da Trindade, 1930.  Autoria de Maria Adelaide Lima Cruz


JOSÉ BARBOSA (1900-1977)

A obra de José Barbosa é muito vasta e original: revista e tragédia, bailado e ópera, comédia e teatro infantil. E para todos os géneros soube encontrar a atmosfera, a forma, a cor, acrescida daquela criatividade e elegância que o torna diferente de todos, podendo bem ser considerado o maior desenhador teatral do séc.XX.
Os figurinos de José Barbosa nos anos 20 e 30 são de uma delicadeza extrema, pequenos, muito bem desenhados, com cores claras e que o seu suporte favorito, o papel de seda, tona quase transparentes. Depois evoluiu para desenhos menos estilizados e mais coloridos, sobre cartolina.

MARIA ADELAIDE LIMA CRUZ (1908-1985)
Nascida numa familia de artistas, entre a pintura e a música, Maria Adelaide Lima cruz quando era ainda criança já expunha os seus desenhos.
Muito jovem, nem tinha 20 anos foi chamada por Eva Stachino para colaborar com José Barbosa em Carapinhada uma revista muito inovadora. Deu que falar a sua apoteose Loucura Vermelha, com uma abundância nunca vista de plumas e marabu.
As mulheres imaginadas por si nos seus figurinos são muito esguias e elegantes, elegantes, enviesadas, sugerindo movimento, umas desportistas, outras lânguidas, por elas escorrendo pérolas, plumas e flores, fazendo lembrar as estilizações de Erté.
O seu estilo cosmopolita, colorido e sempre elegante, está bem patente na apoteose das Praias, de revista Arre Burro, (1936), onde mulheres que fumam se recortam um fundo de praia, sobre o qual está suspenso um chapéu de palha cheio de mulheres, todas muito sofisticadas, a que apenas Beatriz Costa dá um ar gaiato.
Maria Adelaide desenhou também para bailado, ópera e comédia, mas a sua época mais importante foi sem dúvida os anos 30, com os figurinos e cortinas que desenhou para a revista. Depois o seu traço tornou-se pesado, as suas cores maciças, os seus figurinos enormes e desajeitados.
A sua arte passou a servir melhor a decoração de edifícios públicos, que enfeitou com abundância
Em 1935,para se apresentar ao lado de Chevalier, como grande vedeta, Corina encomendou figurinos a todos os grandes desenhadores portugueses do momento, entre os quais figurava Armando Bruno, que desenhou o trajo que foi o mais admirado, um vestido negro com coloridas aplicações festivas e uma barra de manjericos na saia.
Com um traço elegante, embora por vezes exagerado, quase caricatural, usando cores suaves ou muito vivas e contrastadas, com uma estilização imaginativa, Armando Bruno desenhou 16 revistas, entre 1931 e 1941, algumas em colaboração com Pinto de Campos.

     Pormenor de fotografia do quadro 'As praias' da revista 'Arre, burro', Teatro Variedades, 1936Figurino para 'Nina del Portugal' em 'Parade du monde', Casino de Paris, 1935. Autoria de Armando BrunoPormenor de fotografia do quadro 'Riquezas de Portugal' da revista 'O tremoço Saloio', Companhia Luísa Satanela-Estevão Amarante, Teatro Avenida, 1929Pormenor de figurino para a revista 'Feira da Luz', Companhia Hortense Luz, Teatro da Trindade, 1930.  Autoria de António AmorimPormenor de fotografia do quadro 'Santo António está no trono' da revista ''Fanfarra', Companhia Maria das Neves, Eden Teatro, 1938Pormenor de figurinos para 'O Douro e as suas uvas' (figurinos nunca executados), 1935. Autoria de Jorge HeroldPormenor de figurino para Chuta-chuta para a revista 'Milho Rei', Companhia Maria das Neves, Teatro Maria Vitória, 1935.  Autoria de Mário Gomariz

ANTÓNIO AMORIM
António Amorim teve uma passagem muito breve pela revista, mas deixou figurinos de uma minucia preciosa, fantasias folclóricas tratadas como delicadas miniaturas, coloridas com suavidade mas de modo a resultar em pleno no palco, como atestam as fotografias de cena.
Em 1929, Luisa Santanela e Estevão Amarante chamaram António Amorim para desenhar o vasto guarda roupa de o Tremoço Saloio, que era cheio de invenção e de um bom gosto maravilhoso.
Foram, ao todo, entre 1929 e 1937, apenas sete revistas desenhadas por Amorim, mas um trabalho marcante. Passou então a dedicar-se por inteiro à decoração de interiores colaborando com a loja mais chic da Baixa, ficando famosos os seus biombos, que executava com a maior delicadeza.


JORGE HEROLD (1907-1990)

Quando Jorge Herold, em 1934 se encontrava em Lisboa, Amélia Rey Colaço, que preparava a montagem de um espectáculo vanguardista e que acenderia mesmo uma ponta de escândalo, Gladiadores, de Alfredo Cortêz, encontrou nele o colaborador ideal, encomendando-lhe cenários e figurinos que, ainda hoje respiram uma enorme modernidade.
Logo a seguir, como seria de prever, Jorge Herold deixou-se fascinar pelos vastos horizontes que oferece à imaginação o teatro de revista.

E, no entanto, a sua carreira reduziu-se a 4 revistas desenhadas entre 1936 e 1938.
O ambiente não lhe agradou, por demasiado limitado, oposto à sua sensibilidade.
Embora tendo colaborado em poucos espectáculos, Jorge Herold nunca deixou de pensar no teatro, desenhando centenas de maquetes de cenário e figurinos, quer para revista quer para teatro clássico, colecção que em boa hora, decidiu oferecer ao Museu Nacional do Teatro.
Um mistério, este Mário Gomariz. Quase nada se sabe do magnifico artista que desenhou três revistas em 1934 e uma em 1935.
O que se sabe é que Gomariz deve figurar obrigatoriamente entre os grandes desenhadores da revista portuguesa neste seu período de combate pela modernidade, conseguindo, melhor que qualquer outro, competir em elegância e invenção com as grandes fantasias de Hollywood.


LAIERTE NEVES (1914-1981)
O
s figurinos desenhados por Laierte Neves, de inicio esguios depois acompanhando a silhueta ditada pela moda das várias décadas que atravessou, nunca são bonitos, tentando em vão, encontrar uma forçada elegância. Por isso as fotografias de cena das muitas revistas que desenhou surpreendem com frequência, pois os conjuntos têm um certo equilíbrio, até mesmo inesperada beleza.

PINTO DE CAMPOS
(1908-1975)
Desde muito jovem sonhando com o teatro, Pinto de Campos viria a consagrar-se o maior desenhador de teatro musicado no séc. XX em Portugal.
Entre 1931 e 1975, numa actividade quase ininterrupta, Pinto d Campos terá desenhado qualquer coisa com 137 revistas, para além de operetas e dezenas de cenários para comédias, algumas peça clássicas e até filmes.
Mas a revista era o seu meio de expressão privilegiado, onde a sua imaginação subia mais alto, inventando sempre uma maneira de apresentar um tema por vezes muito batido, como o fado, impondo as suas cores magníficas, o seu bom gosto infalível.
Nos anos 30, Pinto de Campos desenhava figurinos pequenos, muito cuidados, com mulheres esguias, como era moda, com cores muito bem trabalhadas, com largos folhos coloridos em matiz. Nos anos 40, a influência da moda e do cinema faz os seus desenhos tomarem volume, desenhando grandes maquetes e figurinos, com mulheres sugerindo esculturas, usando cores fortes e até inesperadas, com um final todo laranja ou vestidos do super moderno tecido plástico, recebendo e reinventando as mais diversas influências desde os desenhos animados de Walt Disney aos musicais da Broadway, que visitou.

                                   Pormenor de fotografia do quadro 'Como eu recordo as tuas mãos' da revista 'Chuva de mulheres', Companhia Maria das Neves, Eden Teatro, 1937Pormenor de maquete de cenário para o quadro 'Severa Jones' para a revista 'Forrobodó', Teatro Avenida, 1962.  Autoria de Pinto de CamposPormenor de figurino para A noite para a revista 'Melodias de Lisboa', Teatro Monumental, 1955.  Autoria de Pinto de Campos